Etiene Medeiros, primeira nadadora campeã e recordista mundial do país, fala de sua luta contra o racismo no esporte, na sociedade e dentro da própria seleção brasileira de natação

Os meus pais até hoje moram na mesma casa, em um bairro que se chama Lagoa do Araçá, no Recife. Um lugar que não poderia fazer mais jus ao seu nome. Existe mesmo a lagoa e, em volta da lagoa, tem um bairro. No passado, lá era um mangue, e hoje é uma civilização. Meus pais foram criados lá, um reduto de muitas famílias negras. Eu cresci ali, em um bairro com representatividade negra. Se eu fosse até uma padaria, encontrava negros. Na escolinha em que estudei quando era bem nova, que ficava dentro do bairro, havia muitos negros.
 

Quando comecei a sair daquela minha “bolha” de Lagoa do Araçá para frequentar uma escola de inglês, ou então para frequentar um colégio particular que era mais para o centro, passei a sentir a diferença de presença. Eu já não via tantos negros. Os negros são periféricos. É difícil você ver um negro tipo o [ex-presidente dos Estados Unidos Barack] Obama, tá ligado? Era raro ver um professor negro.

Muita gente fala que o Brasil é racista. É verdade. O Brasil é racista e foi colonizado por racistas. Foi o último país das Américas a abolir a escravidão.

A questão do racismo bateu em mim de uns quatro anos para cá. Muitas vezes, era abordada com perguntas relacionadas a ele e eu não sabia como me posicionar. Mas percebo que ele está presente em tudo. Nunca sofri uma ofensa grave diretamente dirigida a mim. Mas percebo muito aquele racismo vindo do olhar das outras pessoas. Da cultura de as pessoas olharem para mim e eu não poder reclamar porque vai ser tachado de mimimi.

Etiene Medeiros em treino - Igo Bione
Etiene Medeiros em treino – Igo Bione

Se eu saio hoje e vou a um hospital de renome fazer um exame, ou se eu vou a um café, eu sinto na pele o preconceito. Acho que é um questão de cultura da sociedade, é uma questão que vem desde a época da colonização. É que nem o machismo, que vem de anos, é uma coisa patriarcal e as pessoas não têm noção. Todo mundo é machista, até eu sou um pouco machista, porque fomos criados em uma sociedade sexista.

Eu moro em um condomínio de padrão médio, podemos dizer assim, em São Bernardo do Campo. Até agora, de 200 e poucas casas, só vi dois negros. Estou em um nível social em que não encontro meus pares. Parece que, quanto mais se sobe no nível econômico, mais nítido fica. Quando vou ao aeroporto e entro numa sala vip, não me sinto representada. Não encontro negros. Quanto mais você evolui em nível social e econômico, mais o racismo é visível.

E como que a gente muda isso? Hoje, eu não sei. Talvez com um acesso maior, para discutir maneiras de ampliar essa inclusão. Nós temos muitos atletas negros bons no Brasil. Falta acesso. Falta inclusão.

INÍCIO NO RECIFE

Eu comecei a praticar esporte quando era adolescente. Nas aulinhas de natação no Recife, tinha duas amigas negras dentro de um universo de 90 atletas. Ao todo, éramos eu, meu irmão [Jamison], o Eric, a Érica, a Louise e o Marquinhos. Eram esses, não passavam de seis negros, e todos irmãos, dentro de um grupo de 90 atletas. Não havia uma representatividade, e não digo nem só dentro da água. Mas, também, fora dela.

Eu não vi um técnico negro, não via um auxiliar negro. Os negros que a gente via eram o piscineiro, que cuidava da piscina, ou a moça terceirizada que limpava o banheiro.

E era idêntico dentro do colégio. Por sinal, o primeiro momento em que eu senti a questão do racismo foi no colégio, não no esporte. Naquela época de ensino fundamental, o negócio era o meu cabelo. Por várias vezes eu escutava que tinha “cabelo pixaim”, “cabelo de bombril”, ou então ouvia uma ordem como “prende esse cabelo, menina” ou um insulto na linha do “teu cabelo é feio”. O primeiro choque racial, de preconceito, foi nessa questão da beleza. A mensagem que eu percebia era que a minha beleza era uma beleza feia. Uma beleza inferior.

Etiene Medeiros, primeira nadadora campeã mundial do país - Igo Bione
Etiene Medeiros, primeira nadadora campeã mundial do país – Igo Bione

Sempre ouvia as pessoas dizerem que os traços negros são mais grossos. Que negro tem nariz grande e boca grande, enquanto a sociedade tinha como padrão de beleza uma boca mais sutil. Isso é muito sem noção, isso é ridículo, não é aceitável. A questão do racismo mesmo ficou bem encravada de que o negro não era bonito, a menina preta não era bonita. Bonito era quem tinha olhos claros e cabelo liso.

A natação é um esporte de elite. Caro e pouco acessível. Muito diferente do atletismo, onde você vai lá e corre – a maioria dos atletas vem da periferia, porque o atletismo dá mais acesso. Você põe um tênis e corre. Na natação, não. Onde você arruma uma piscina? No meu caso, como você arruma uma piscina em um bairro como a Lagoa do Araçá? Não tinha.

Eu entrei para a natação por indicação médica, por ser asmática, mas muito por minha mãe ter trabalhado e ter me dado privilégios. Eu tive o privilégio de estudar em uma escola particular. Depois, a natação me deu a oportunidade de uma bolsa escolar em uma das principais escolas do Recife.

Eu sou uma negra privilegiada, fora do contexto, inserida em uma porcentagem mínima de negros com acesso.

Para se comprar uma touca, é R$ 50. Um óculos é R$ 100. Quantas pessoas têm condição de pagar isso? Eu tenho certeza de que o negro médio, infelizmente, não tem. O poder aquisitivo é baixo. A inclusão dos negros na natação inexiste.

REGIONALISMO COMO DIFERENÇA

Comecei a me destacar e recebi convites para treinar fora da minha cidade. E vim entender mais o cenário da natação ao sair de casa. Acho que eu era muito nova para estar inserida em um assunto como o racismo, para o qual eu não dava muita importância. Não é que eu não dava importância, mas era nova, era jovem, não tinha muito ativismo em relação a isso.

E, hoje, por ter uma noção maior de vida e do lugar a que pertenço, vejo a importância de discutir igualdade racial. Poxa, eu sou a primeira campeã mundial negra da natação do Brasil [venceu os 50m costas em 2017 no Mundial de Budapeste]. Mas, se por um lado me deu medalhas e reconhecimento, a natação também foi dura comigo.

O maior preconceito que eu vivi vindo para o Sudeste foi o de ser nordestina. Muitas vezes fui zoada por conta do sotaque. E o brasileiro gosta deste tipo de brincadeirinha. Gosta dessa coisa de inferiorizar as pessoas. Todo mundo é o “baiano”, todo mundo é o “paraíba”. E isso é nojento. Eu fico em choque.

Etiene Medeiros durante treinamento - Igo Bione
Etiene Medeiros durante treinamento – Igo Bione

Pessoas com as quais eu convivo há anos e ainda têm esse tipo de brincadeira na minha frente. Eu acabo por me distanciar. Falo assim: “Cara, para de falar isso, velho! Isso é feio!”. E a pessoa não está nem aí. Eu acho que isso é falta de cultura, falta de estudo. Com pessoas assim eu não gosto de continuar a ter amizade, sei que não vai me levar para a frente.

Eu saí do Recife em 2012 e fui treinar no Flamengo. No Rio, não sofri tanto preconceito em relação a isso, mas quando cheguei a São Paulo foi demais, demais, demais, demais, demais. Eu era a única nordestina da minha equipe. Até tinha a Ana Marcela Cunha, mas ela já vivia aqui pelo Sudeste havia um bom tempo.

Diante dessas ofensas, eu tentei não me abalar. Eu sou braba e é isso. As pessoas que teriam de aprender a lidar comigo. E que não viessem com essa de falar “oxe”, “oxente”, “pexêra”. Não é aceitável que, em 2020, haja tanto bairrismo.

Você tem que pegar o país onde você mora e estudá-lo. Saber que lá no Amazonas tem a maior floresta do mundo, e eu tenho certeza de que muita gente no Brasil não tem noção do que é o Amazonas. Esse tipo de preconceito eu vivi muito. Em alguns momentos, na verdade, eu ainda vivo.

INSULTOS NA PISCINA E ALÉM

Na borda da piscina não é muito diferente. Em competição, há muitos comentários racistas. Por mais que seja triste, eu escuto dentro da nossa seleção mesmo. Brincadeiras racistas. “Ó lá, tinha que ser preto”. “Ó lá, fazendo merda, tinha que ser preto”. Essas brincadeirinhas de criança, mas feitas por adultos de 20, 30, 35 anos. O que eu escuto de “tinha que ser preto” é muito. É demais. E aí você fica puta da vida, chama a atenção, mas as pessoas não dão trela. Debocham.

Etiene Medeiros - Igo Bione
Etiene Medeiros – Igo Bione

Outra coisa são as brincadeiras homofóbicas, muitas situações nas quais eu fico pensando “não é possível que essa pessoa está falando isso”. Dá vontade de perguntar para essas pessoas se elas já leram o livro da Djamila Ribeiro, o “Pequeno Manual Antirracista”. Vou comprar um exemplar para cada um da seleção para começar a falar dessa pauta. Mas, o fato é que, infelizmente, há brincadeiras racistas.

O negro tem que mostrar, silenciosamente, que é bom. Sempre tem que provar, porque é visto com desconfiança. No meu caso, é comum ouvir “Nossa, mas você não é nadadora?”, “Você foi para os Jogos Olímpicos?”. Com surpresa. É mais ou menos assim, sabe?

E também existe o repúdio científico para os negros na natação. Fui criada ouvindo isso, que por ser negra meus ossos eram mais pesados e minhas fibras musculares mais rápidas. Escutei muito. Teve fase na vida em que eu ficava pensando “gente, mas não somos todos seres humanos iguais?”. E nós somos todos iguais. Ouvi muito “ah, você pega músculo mais rápido, você é negra, mais forte”. Para. Pelo amor de Deus. Tem uma coisa que se chama genética e tem outra que é racismo mesmo. Essas baboseiras que a gente escuta vão desestimular os mais novos.

As confederações e o COB [Comitê Olímpico do Brasil] devem fazer alguma coisa, urgentemente. Mas fazem pouco. O COB fez uma live recentemente para falar sobre isso, que foi ótima. Vivemos um momento histórico em 2020. As confederações devem ter esse tipo de trabalho, e a mesma coisa deve ser feita com o abuso sexual dentro do nosso esporte. Essa agenda deve estar no alto da lista de prioridades da pauta de uma confederação e do comitê olímpico, assim como diversidade, da pauta trans, da pauta LGBTQI+.

As confederações têm que se entender como empresas diversas, e está evidente que as empresas que tiverem esses assuntos em sua pauta serão mais bem-sucedidas. Mas parece que as confederações estão congeladas.

CONSCIÊNCIA EM FALTA

Eu vi a reportagem do Esporte Espetacular sobre o racismo no Pinheiros, e eu lembro muito bem na época [em 2015] quando houve aquela brincadeira [com o ginasta Ângelo Assumpção]. Eu acho que os ensinamentos têm que começar dentro das escolas, sabe? Falar de cultura afro-descendente, falar da trajetória dos negros. Não tem isso. Pode até ter no código, mas as escolas não põem em prática. É varrido para baixo do tapete o tempo inteiro. E aí quando o jovem cresce não tem noção do que fez. E vêm pai e mãe defender que o filho não é racista. “Sim, seu filho é racista”. Nós precisamos educar melhor nossos filhos, nossa família.

Hoje, eu tenho altos papos com a minha mãe que eu jamais imaginava que teria. Ela sofreu demais, foi a única entre oito irmãos que saiu da terra dela e foi para o Rio de Janeiro estudar, voltou, trabalhou no alto escalão do governo. Negra. Quanto que ela não sofreu? Hoje em dia ela conta alguns episódios que me fazem acender algumas luzes. E a gente é acostumado nessa merda, nessa sociedade que nos coloca sempre em posição de defesa.

Etiene Medeiros no Parque Aquático Maria Lenk - Igo Bione
Etiene Medeiros no Parque Aquático Maria Lenk – Igo Bione

A gente sabe que vai muita coisa para debaixo do tapete, que fica anos e anos e depois desaparece ou reaparece. Um atleta com trauma, um profissional que pode ter ficado com trauma porque viajou alguma vez com a seleção e identificou um ambiente nocivo e não quer trabalhar mais lá.

As confederações e as empresas têm o papel de filtrar quais profissionas põem lá dentro e ter uma manutenção em relação a isso. Além disso, mudar o entendimento de que, se houve atraso, só o atleta está errado. Se ele engordou, só o atleta está errado. Precisamos de pessoas humanizadas.

Hoje, eu sigo muitos negros em redes sociais e uma das quais eu sou muito fã é a CEO da Lacoste, Rachel Maia. Ela é CEO da Lacoste, é negra e eu só descobri isso há uns dois anos, em uma palestra. Naquele evento, eu me se senti o máximo. Tipo, nossa, existem negros no topo.

  • Etiene Medeiros, 29, é campeã mundial dos 50m costas (2017), medalhista de ouro nos Jogos Pan-Americanos nos 100m costas (2015) e 50m livre (2019) e finalista olímpica nas Olimpíadas Rio 2016