O Círio de Nazaré 2020, assim como o ano em si, foi diferente. Por conta da pandemia da covid-19, as principais manifestações que marcam a maior procissão católica da América Latina – o sacrifício dos promesseiros na corda e o mar de gente que escoa pelas ruas do centro de Belém atrás da berlinda que conduz a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré – não puderam ocorrer da forma como tem sido ao longo de 227 anos.

Mas, desde o início da manhã deste domingo, 11, milhares de promesseiros se dirigiram aos arredores da Catedral de Belém no intuito de encontrar o mínimo vestígio que fosse do que estão habituados a ver todo segundo domingo do mês de outubro. Alguns levaram celulares para acompanhar a missa de abertura do Círio também pelo aparelho. Outros se contentaram apenas em ouvir a missa pelo sistema de som instalado ao longo das vias da Cidade Velha.

Ao final da missa, Dom Alberto Taveira Correia, que presidiu a celebração, não se conteve. Ao subir no carro que levaria a imagem até o local do embarque no helicóptero para o sobrevoo pelos hospitais, o arcebispo se emocionou e repetiu o gesto que todos os devotos estão acostumados a ver no início da grande procissão: levantou a imagem e abençoou os fiéis que aguardavam para ver a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. Ao gesto aparentemente singelo sucederam demonstrações de emoção e fervor.

Daí em diante, foi a vez da multidão recriar o Círio de Nazaré. Milhares de pessoas seguiram pelas ruas do centro de Belém levando  imagens, reproduções da corda e até uma réplica da bandeira das estações para dar sentido à procissão, apartada este ano do seu maior tesouro: a berlinda de Nossa Senhora. A despeito de todas as recomendações em contrário, muitos pontos de aglomeração se formaram, e a necessidade de distanciamento social por conta da pandemia não foi respeitada.

No meio do caminho, o trânsito de veículos foi liberado na tentativa de conter a presença maciça dos fiéis, mas o que se viu no principal corredor da procissão foi uma disputa desigual entre a acidez do trânsito e a sutileza do sacrifício dos promesseiros na tentativa de quitar a dívida com a Senhora de Nazaré.

Para a surpresa dos devotos, uma mudança na programação fez com que outro helicóptero, dessa vez do Grupamento Aéreo de Segurança Pública – Graesp, fosse destacado para percorrer o trajeto original do Círio conduzindo a imagem da Padroeira da Amazônia pelos céus de Belém. Ao fim do trajeto, a aterrissagem no estacionamento da Praça Santuário e o momento tão esperado: a caminhada, ainda que breve, da imagem mais próxima do seu povo, após a recepção com direito a honrarias de chefe de Estado.

Também de forma inédita, a imagem conduzida, agora sim, pela berlinda, não ganhou o seu nicho contumaz. Em vez da redoma de vidro da Praça Santuário, o maior símbolo da festividade foi levado para o altar da Basílica Santuário, local de achado da imagem original, pelas mãos do governador Helder Barbalho. A missa de encerramento fechou a programação deste que foi um dos Círios mais atípicos e emocionantes da história.

 

 

Fonte: O Liberal
Foto: Oswaldo Forte/O Liberal